quinta-feira, 11 de março de 2010

O Perfume

O Perfume que cada um.....

Assisti ao filme O Perfume e o que me pareceu no início um filme violento e sanguinário, por isso deve ter adiado várias vezes de vê-lo, no final me pareceu uma analogia com o que temos no dia a dia, por sentidos que não só o olfato. Não sei se era a idéia original do autor, não li o livro nem a intenção. Por isso divago.

O personagem, Jean-Baptiste Grenouille, o quinto filho de uma mercadora de peixe, que havia jogado os filhos anteriores, sem saber se estavam vivos ou mortos, junto com os restos de peixe no rio, tinha decidido viver e recebido um dom especial de sentir e distinguir cheiros desde o nascimento em meio à lama fétida e de um mercado de peixes, onde, segundo o narrador existia o pior cheiro, do pior local, do pior bairro de Paris, na pior época da cidade em termos de higiene. Um mutante que desenvolveu um sentido animal para sobreviver num mundo animal.

Só aprendeu a falar aos cinco anos e falou pouco durante a vida, porque não precisava.

E também carregava o fardo de destruir aqueles que cruzavam seu caminho. Como disse o narrador. “Sua primeira manifestação de voz, o choro, levou a mãe à forca”.
O epílogo inesperado, quase heróico.

No final, sabendo do seu terrível poder, que poderia até conquistar o mundo através das essência do amor, retiradas das várias virgens assassinadas, preferiu morrer de amor, canibalizado, devorado num frenesi tão grande que cheirar, tocar, apalpar não satisfazia os seus assassinos.

Tinham que devora-lo. Talvez ele tenha preferido assim, para se imortalizar em cada um dos seus devoradores, visto que ele mesmo não poderia amar, nem ser amado. Ele não tinha cheiro. Se inebriava com o cheiro que podia sentir nos outros e nas coisas, mas ele não o possuía.
Se imortalizou provocando os outros a destruí-lo.


Terminei o filme pensando quantos de nós se utiliza de recursos e sentidos mais apurados para subjugar emocional, física ou financeiramente nossas vítimas? Quantos de nós comete “assassinatos parciais”, tirando o livre arbítrio, a vontade dos outros?
Pode ser a parceira, o parceiro, empregados, colegas, filhos, pais....

Se não temos, tiramos do outro, ou não queremos que o outro possua.

Quantos possuem estoque intelectual suficiente para tornar o “outro” dependente da nossa vontade, do que queremos, ou pelo menos do que pensamos que queremos?

Quem de nós percebe como chegar até a outra pessoa com as palavras que ela quer ouvir, com o presente que ela esperava, com a concordância para a idéia que era tão necessária?

Não seria isso usar de “instintos” que em nome da inteligência perdemos para os reflexos?

Os inconscientes se comunicam e acabamos sabendo as necessidades e fraquezas dos outros. Então, as vezes inconscientemente mesmo, nos apossamos das vontades do “outro”, fazendo com que dependa de nós, das nossas atitudes, das nossas “autorizações”.

Usamos nossos “perfumes” para ir sobrevivendo, nem que para isso, como defesa, usemos os outros que gostam dos cheiros e aromas que enviamos, dependendo do receptor.

Somos todos meio canibais e meio anjos.
Meio assassinos e meio criadores.
Podemos dar e tirar.
Somos profanos e divinos. Diabólicos e Simbólicos.

G.Vargas



Agosto 07 – 15:24hrs (domingo)

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